Quinta-feira, Junho 30, 2005
Os hóspedes
Chovia torrencialmente a dez dias, quatorze horas e trinta e cinco minutos. Os segundos eram contados pelos pingos caindo das telhas. Ping ping... A umidade como lagartixas, subia pelas paredes, os móveis já estavam ficando verdes, as samambaias migravam dos vasos, para os cômodos da casa. O frio estava em cada canto, em cada osso, doendo uma dor incômoda e irritante. O cachorro, já magro de fome, fedia, os sapatos, mofados cheiravam mal. A comida estragara. A cortina de chuva impedia a claridade do dia de entrar, deixando o ambiente claustrofóbico, lá fora, o solo estava sendo erodido, a força das águas estava levando a terra, deixando um canal barrento e escorregadio. O círculo estava se fechando. Não era possível sair de casa, e estava se tornando impossível permanecer dentro. Dez dias, dezesseis horas de chuva. A força do vento forçava as janelas, dando às gotas a impressão que eram projéteis tentando perfurar, estilhaçar os vidros. Vários pássaros mortos, e já putrefatos, boiavam nas poças d'água. A eletricidade caíra no primeiro dia, a luz agora era fornecida por um lampião a querosene, que já estava acabando. O frio aumentava, por causa do vento encanado que entrava pelas frestas, e pelos cantos a água da chuva empoçava. Desespero, impotência, a certeza do fim. Esses sentimentos os afogavam. Dez dias, vinte e três horas de chuva, ventos, raios e trovões...Escurecia. A comida estragada fedia ainda mais, aumentando o desespero e fome. Fome. Encurralados, famintos e... Uma trovoada fez o chão tremer, o lampião caiu e apagou-se. Trevas, iluminadas por raios, e sombras fantasmagóricas. Choros. Onze dias de chuva. O solo, lá fora, cedeu mais um pouco, não há mais como sair de lá com o carro. Se possível fosse sair dali. A corredeira produzida pela chuva, agora carregava árvores e os animais mortos. O vento não só não diminuíra, como ainda, levara mais umas telhas, fazendo com que a chuva acabasse de molhar os hóspedes da casa.

A força das águas, agora represadas por dentro, começam a forçar as paredes. Desesperados os hóspedes, com copos e panelas, começam a batalha para tentar esvaziar a casa. Em debalde lutam com força das águas. A paredes de madeira começam a ceder, e vento lá fora, como que com uma consciência diabólica, começa a soprar mais e mais. Cada vez mais forte. A casa começa a ruir para o total desespero dos hóspedes. Inclina. A janelas cedem. A chuva fria e forte entra, enregelando as mãos, dificultando ainda mais o impossível projeto de tentar salvar, o mínimo que fosse do que restou do abrigo. Uivando, no escuro, o vento dá uma definitiva rajada, a casa por fim cede. A força das águas, somada ao vento leva todo entulho montanha abaixo. Sem sobreviventes, sem restos, sem rastros, a natureza rejubila-se. Um rio de destroços a descer furiosamente a montanha. Onze dias de chuvas torrenciais.

ROBERTO PRADO
 
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Eterna Mágoa
O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!

Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!

Augusto dos Anjos
 
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De Bernard Shaw em seu "Manual do Revolucionário"
"A história ensina-nos que a história não nos ensina nada".
 
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A queda de Germano
Vagarosamente, devagar, quase em camera lenta Germano cai. Como se estivesse numa gravidade lunar, sua cabeça aproxima-se vagarosamente do chão de pedras. Numa vagarosidade vertiginosa Germano vê o chão vir em sua direção. Seus braços pesados como chumbo estão imóveis, não, não imóveis, mais parecem braços feitos de panos, balançando-se feito bandeirinhas ao vento, eles não mais obedecem a sua vontade. Germano não consegue fazê-los amparar a sua queda. O chão aproxima-se mais e mais. As pernas, como arames, estão enroscadas uma a outra, os seus pés, parece, trocaram de lugar, onde deveria estar o direito, o esquerdo, e vice-versa. O chão aproxima-se ainda mais. O rosto de Germano estampa o desespero, a perplexidade, a impotência. O chão sujo está ainda mais próximo. Sua respiração está suspensa, seu coração bate tão rápido que parece que parou. A paisagem á sua volta tornou-se um borrão multicolorido, enquanto cai, Germano espanta-se com o repentino silêncio, tudo parece parado, estático, congelado. O chão mais perto. Germano voa, desliza pelo espaço qual um super-homem de história em quadrinhos, verticalmente flutua, cai... O chão duro recebe o corpo de Germano. Encabulado, Germano levanta-se, amarra o cadarço de seus sapatos e segue em frente, embaraçado, envergonhado, com vontade de morrer de vergonha.

ROBERTO PRADO
 
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Quarta-feira, Junho 29, 2005

Imagem: Alexandre Costa

Na cama macia um corpo dormia
Já era tarde demais
Canto dos olhos negros
E vento gelado sobre as mãos
Ali do teto imaculadamente branco
Pairando sob o frio chão
Podia ver
Seu corpo estendido
Seu rosto sorrindo
Seus pensamentos se vão

ALEXANDRE COSTA
 
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Terça-feira, Junho 28, 2005
 
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Apesar de...
Apesar de
todo funk
todo rap
desse céu nublado
dessas crianças gritando na rua
desses carros que aceleram de frente a lombada
desses animais pelas ruas
dessas motos barulhentas
do meu chefe que veio dos infernos
do telefone que não para de tocar
do cão que não cansa de latir
do papagaio do andar de cima que grita o dia inteiro
das pessoas chatas ao meu lado
das pessoas chatas á minha frente
das que ainda vem atrás
de hoje ainda ser terça-feira
de ninguém ainda ter desligado o alarme do carro lá na esquina
apesar do relógio da parede estar parado
(ou parecer estar)
apesar de tudo isso
esse mundo ainda não acabou!
Mas amanhã...

ROBERTO PRADO
 
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Segunda-feira, Junho 27, 2005
E por que não?
Se olharmos lá fora, pela janela, veremos um mundo compacto, onde tudo parece uma coisa só, não percebemos o limite entre uma casa e outra, uma esquina e o pedestre que atravessa a rua, as lojas comerciais, os escritórios, os carros apressados e motoristas nervosos. Mas o mundo não é compacto, o mundo é fragmentado e cheio de sutilezas que nos são invisíveis aos olhos, até os mais atentos.
A vida é assim tão sutil e misteriosa, complicada e fulgáz! Precisamos nos atentar aos mínimos detalhes cotidianos para poder, não entender, mas aceitar muitas coisas. Assim é que a vida passa e violentamos uns aos outros, uns inconscientemente, outros não.
Vamos respeitar o pedestre.
Não querer sempre levar vantagem sobre o outro.
Não fumar em lugares fechados.
Não parar na faixa.
Não atravessar o sinal fechado.
Não desejar o mal.
Dar mais bom dia e boa noite.
Ouvir mais e falar menos.
Beijar os filhos todos os dias.
Querer estar feliz do que milionário.
Ter sempre um sorriso lá no fundo esperando pra sair.
Descomplicar mais.
"Ver" melhor as coisas e as pessoas.
Ler um bom livro.
Desligar a TV.
Desligar a TV.
Desligar a TV.
Não espere nada de ninguém. Apenas viva a vida éticamente.
Se todos entenderem isto, o resto é lucro.

ALEXANDRE COSTA
 
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Sexta-feira, Junho 24, 2005
Pubricidade e Popraganda


A TV mostra por aí, invadindo inescrupulosamente nossa sanidade mental e nossa moral, peças publicitárias ridículas e de muito mal gosto. Preferem dar valor a coisas fúteis e descartáveis como diálogos imbecis, textos fraquíssimos e cenas irreais, tudo para iludir os jovens ainda "verdes" e classes mais abastadas que não usam o cérebro para "ver", mas apenas os olhos. Ver um comercial na tv, um programa de auditório ou uma novela hoje em dia é coisa para flores de plástico e peixes (desculpem as flores e os peixes)!

ALEXANDRE COSTA
 
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Quinta-feira, Junho 23, 2005


Vasto espaço
Vazio
Longo horizonte
Vazio
Profundo céu azul
Vazio
Todos os setes mares
vazios
Os cinco continentes
vazios
Ainda maior o
Vazio
Interior
Vazio
D'alma
Vazio
Um imenso e inútil
Vazio
Que nada mais poderá preencher...
 
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Imagem: Alexandre Costa

Que bom seria se você tivesse
Todas as cartas de amor que merece
Todas as pétalas de rosa que cobrissem a sua casa
Todos os bombons suíços que deseja
Todos os beijos que te fartassem
Todos os carinhos que te consolassem
Todos os abraços que te aquecessem
Todos os amigos que te cercassem
Todo o amor desse mundo fosse seu, mas
Pare
Pense
Responda.
O que você já fez para merecer tudo isso?

ROBERTO PRADO
 
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"X" - capítulo 5
__"Que Deus cruel eu servi", ainda ecoava em sua mente. Desde de pequeno X quis servir a Deus, começou como coroinha, depois acólito, até que entrou para o seminário. Lembra ainda da alegria do primeiro dia, as leituras, o amor despertado pelos santos e mártires, as discussões filosóficas com os professores e colegas. Discussões demais, ele lembra hoje. O estranho era o "branco" em sua cabeça. Por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar-se de mais nada. Nada vinha à sua cabeça, por vezes chegava a pensar que era louco, que tudo era uma ilusão, um surto psicótico. Como explicar sua peregrinação a lugar nenhum, andar dormindo, atravessar o país a pé? Seria isso coisa de gente normal? Ir de um lugar para outro sem sentido, sem planejar, andar por aí sem nexo? Isso sem contar os seus "pressentimentos". Achar que as pessoas que encontra pelo caminho morrem após falarem com ele... Realmente alguma coisa estava muito, muito errada aí... Tudo isso X matutava enquanto andava. Andando foi dar às portas de uma grande catedral. Gótica. Entrou. Lá dentro tudo escuro, ameaçador, deprimente, claustrofóbico. Parado na porta, X pensou muito se deveria entrar. Lá dentro não teria a companhia de sua sombra. Mas o cheiro de cera das velas o atraía de forma avassaladora. Respirou fundo e entrou. Sentou-se num dos primeiros bancos de frente ao altar. Baixou a cabeça e tentou uma oração. Por mais que se esforçasse, não vinha nenhuma à sua mente. Isso o deixou ainda mais confuso e assustado. Os anos de coroinha, acólito, seminarista, nada disso lhe serviu para fazer uma simples oração. Por horas X ficou sentado nos bancos da igreja. Dormiu. Horas mais tarde, voltou a si sentado num banco no cais do porto, coberto de excrementos de gaivotas.
__Por onde terei passado enquanto dormia? Essas experiências o estavam desgastando.
X estava desmoronando. Sua sanidade estava se esvaindo dia a dia. Temia acordar um dia em um manicômio.
__Preciso de um lugar para tomar um banho.

ROBERTO PRADO
continua...
 
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Quarta-feira, Junho 22, 2005
Enfim o Inverno


Começou a arrear o molho, a chuva está caindo gostosa, gostosa.... o cheirinho de terra está no ar, trazendo junto a promessa da chegada, em fim, do inverno. O céu escureceu, trovejou e tremeu o chão, ameaçou faltar luz, umas piscadelas de lâmpadas, nada demais. Hoje, pressentindo a mudança, tardia, do clima, as árvores, outonaram repentinamente e jogaram sua folhas amarelas no chão. Com essa chuva, tenho certeza que as ruas vão encher d'água... mas faz parte, não é mesmo? Enquanto escrevo, me pergunto se não deveria ter saído com algum agasalho, afinal, o tempo já se alterou bastante desde que acordei e saí de casa. Preocupações de velho, sair agasalhado. Acho que o outono está chegando para mim também. Faz parte. Em tempo, o bom é que agora é a época das sopas, dos caldos, dos cremes. Do tradicional caldo-verde, usar meias de lã, aquela blusa com cheiro de naftalina...Divago!Mas faz parte...

ROBERTO PRADO
 
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Sexta-feira, Junho 17, 2005
 
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Os abutres aguardam
Segue a fila de mortos
Alguns de vergonha
Outros de indignação
Muitos de inanição
Segue a podridão
A inação
A omissão
A vergonhosa corrupção
Seguem juntos
Os discursos vazios
As palavras ocas
Sem sentido
Sem efeito
Sem afeto
Segue a fila dos mortos
Dos quase mortos
Dos que não morrem jamais
De tudo isso sobra somente
O cheiro da podridão.

ROBERTO PRADO
 
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Quinta-feira, Junho 16, 2005
Você já leu?


Leia aqui a íntegra do conto "X".
 
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Você já leu?


Se você ainda não leu. Clique aqui e veja a íntegra do conto "O homem que queria ser Jabor".
 
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Quarta-feira, Junho 15, 2005
Aqui estou a olhar este céu
A esperar pela chuva
Que destila nossas desventuras
Que enche o solo debaixo de nossos pés.
Aqui
A espera da hora certa
Que se abre como uma porta
Para um outro lugar
Aqui estou
Aqui
Em silêncio
Em sintonia e sintôma
Em desejo e motivo
Aqui
Bem longe de tudo e bem perto
De mim!

ALEXANDRE COSTA
 
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O Diário de Penélope
3º Dia
A areia da praia entre os dedos e os cabelos, o gosto de maresia na boca. Elas levantaram bem cedo, pois a viagem ainda estava no começo. Não podiam desistir agora. Estavam firmes em seu objetivo: o céu!
Cada uma delas, a seu modo, pretendia atingir um estado sublime que as tirassem daquela vida infeliz que levavam. Uma ajudava a outra. A noite se perdiam em carinhos e baseados, em olhares e banhos noturnos. Estavam a espera do dia que se libertariam. Uma semana se passou, agora estavam deitadas numa grande pedra no alto de um morro. Contando estrelas e as tristezas. Penélope deitou-se e fechou os olhos. Pedia por algo quase impossível.
- Deixo aqui o meu passado. Liberto-me de tudo que fui até hoje e me preparo para uma nova vida sem dor nem mistérios. Quero ser o que não fui e deixar que as alegrias que nunca tive se apossem de mim.
Dito isso, saiu voando através do desfiladeiro a sua frente. Foi dois minutos de uma nova vida. Tão breve, o momento se dissipou, as lágrimas cessaram, seu corpo e seu coração descansaram ali, entre as estrelas e as rochas.
Diana acompanhou sua amiga, foram juntas contar novas estrelas e viver uma nova vida! – FIM.

ALEXANDRE COSTA
 
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"X" - capítulo 4
X andava em meio a um pesadelo, pelas ruas gritando, sacudindo os braços, falando palavras desconexas, assustando os últimos notívagos que teimavam ainda em procurar algum prazer naquele resto de noite. Perdido em seu passado, X revia sua juventude, seus amigos, seus mestres. Revivia a dor, a vergonha, a tentativa de fuga, e por fim a cast...
- Não! Com o grito que saiu do fundo de seu peito, X acordou, saiu do transe. Assustado, trêmulo, encharcado de suor.
- Não posso continuar vivendo e revivendo essa dor, essa vergonha. Sedento, entrou em um bar e pediu um copo d'água. Bebeu sofregamente. Ao sair do estabelecimento, pensou, podia jurar, ter visto um vulto negro esconder-se nas sombras. Mas abalado como estava, resolveu não se preocupar com isso. Tinha que seguir andando, caminhando, indo em frente, uma força que ele não podia explicar o impulsionava sempre, cada vez mais para frente. X temia que um dia sua estrada acabasse em frente a um precipício...
O mar já o detivera algumas vezes, mas ele conseguira contornar, arrumar um barco, nadar... Aonde o levaria esse destino de andarilho? O sol já estava alto quando X resolveu descansar. Ele não gostava do sol do meio-dia, esse era o momento em que se sentia realmente só. O sol a pino o deixava sem sombra. X sentou-se num banco, resistiu à tentação de dormir, o sonho ainda estava fresco em sua mente.
- Istvan - Falou X com seus botões, o que foi que eu fiz com você? Se tivesse chance, como eu voltaria atrás para evitar o que lhe aconteceu. Pobre Istvan. Espero que você seja bem recebido no céu...Como uma espécie de resposta, uma nuvem negra cobriu o céu, um vento frio soprou e gelou os seus ossos.
- Pobre Istvan! Esse será então o meu fim. De todos nós? Que Deus cruel eu servi...

ROBERTO PRADO
continua...
 
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Coluna do Meio
Em matéria de sexo
Sou coluna do meio.
Sem preliminares
Sem telefonar depois
O importante é o agora
O antes já foi, nem lembro...
Depois,Bem, depois é depois, já estarei cansado...
Bom é agora
Fazendo!

ROBERTO PRADO
 
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Voar voar voar...
Voltar Voltar Voltar?
Nem pensar! Nem pensar! Nem pensar!

ROBERTO PRADO
 
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Casa na Praia


Casa na praia é bom
tem bom visual
casa na praia é bom
mas tem maresia
casa na praia é bom
mas quando venta...
três dias varrendo!
casa na praia é bom
quando a maré não sobe
casa na praia é bom
quando não é verão
sem gente na frente da gente
casa de praia é bom
mas o imposto...
o resto da vida pagando!
casa na praia é bom
quando se é visita
casa na praia é bom
quando ela não é nossa
pensando bem,
casa na praia é bom?

ROBERTO PRADO
 
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Segunda-feira, Junho 13, 2005
Noites de São João
Céu estrelado
Noite fria
Estrelas cintilando
Fogueira queimando
Crianças correndo
Balões
Bandeirinhas de mil cores
Cantares.
Noites de São João!

ROBERTO PRADO
 
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O Diário de Penélope - continuação
2º Dia
Depois de caminhar muito, decidiram dormir numa pequena pousada em frente à praia, assim estariam descansadas para o dia seguinte.
Entre elas não havia perguntas tolas como “para onde vamos?”, “como?”, tudo era assombrosamente perfeito quando estavam juntas.
Decidiram que naquela noite contariam estrelas até os dedos cansarem e os olhos fecharem.
Penélope e Diana se completavam.
Tragaram a erva e beberam o chá...estavam prontas!
O céu de estrelas e diamantes, girava, ou era o mundo, não sabiam muito bem.
A via Láctea era a estrada perfeita para uma longa viagem naquela noite incrivelmente estrelada.
Olhos vermelhos, mornos, vagarosos, indecisos. O mar e o céu, a viagem silenciosa na mente completavam as aventuras de Di e Pê.
- A vida não é bela? – pergunta Diana
- Sim, pelos menos neste instante. – responde Penélope.
- Sabe o que eu acho? Acho que não sei!
E ficaram ali até amanhecer.
ALEXANDRE COSTA

continua...
 
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"X" - capítulo 3
Seguindo para o leste, mantendo a sua sombra sempre às suas costas, X acorda e espreguiça-se, ainda andando em piloto automático, do cantil carrega a tiracolo, usa um pouco da água para lavar o rosto, bebe um pouco e por fim pára. Pensa o que vai comer no desjejum, e dirigi-se a um bar. Entra, pede um café e um pão com manteiga. Sorve lentamente a xícara de café, e mastiga com muita calma o seu pão. Aproveita para tentar entender o que aconteceu ontem, tentar entender a reação, quase animal de Istvan. Aproveita agora para deixar rolar uma lágrima pelo amigo que ele sabe, falecido. Mais um que ficou, literalmente, pela estrada. X gostaria de entender o que está acontecendo. Dez mortos! Desde a diáspora, no seminário, ele e seus amigos estão espalhados pelo mundo. Sem contato, sem notícias. Tendo que contar apenas com as suas intuições, os seus pressentimentos. Pressentimentos esse que só o "avisam" quando mais um companheiro morreu. Isso não ajudava em nada. O importante era tentar entender como isso acontecia e tentar salvar um que fosse, para que ele pudesse colar os pedaços de seu passado. Precisava entender como, cada vez que encontrava um antigo irmão do seminário, antes que pudesse conversar, perguntar alguma coisa, eles morriam, ou desapareciam...O que estaria acontecendo? X pagou o café e saiu. Sua sombra o esperava lá fora, X a cumprimentou, e juntos seguiram pela rua. A cidade em que estavam era grande, labiríntica e sinuosa, muralhas de edifícios erguiam-se à sua frente, perdido em suas ruas X não pressentia que era seguido por Papai Boa-Noite. X sabia que em uma esquina uma surpresa o aguardava, mas em qual? Papai Boa-Noite, o seguia, em seu rosto, um sorriso maléfico se desenhava. Papai Boa-Noite, aguardava que X o levasse a mais uma vítima. Papai Boa-Noite se comprazia em ser o algoz dos sobreviventes do seminário. Com que prazer ele matou um a um cada um deles. Sua alegria maior era que bem poucas vezes precisou de algum outro expediente que a sua simples presença. Bastava que ele surgisse na frente de sua vítima, para que ela morresse de medo. Papai Boa-Noite, adorava ver a fisionomia do terror estampada na cara do morto. Os olhos arregalados, quase saltando das órbitas.. E pensar que ainda o pagavam para ter esse prazer. Faltavam poucos para serem exterminados agora. Que bela missão o grão-mestre lhe havia dado! Sim dinheiro e prazer! Ele tinha tudo, bem quase tudo, mas não se queixava. X havia muito, estava facilitando a sua vida e seu trabalho. Era só segui-lo. Perdido em divagações Papai Boa-Noite, quase perde X de vista.

Roberto Prado

continua...
 
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Sexta-feira, Junho 10, 2005

Entre os Tic tiac
Dos relógios
E os grãos de
Areia
Das ampulhetas
Perdemos a corrida
Para a eternidade.

ROBERTO PRADO
 
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Em seus olhos
Mais do que possa compreender
Mais do que possa ver
Todas as coisas se completam
Compõem uma imagem
Real, verdadeira.

Em seus pensamentos
Mais do que possa imaginar
Mais do que possa querer
As formas se encontram
Criam espaços e caminhos
Reais, inteiros.

ALEXANDRE COSTA
 
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O Diário de Penélope - continuação
Olhar fixo no mar, as marolas indo e vindo num balé eterno. Sentada num banco da praia, Penélope esperava por Diana, amiga de muitos anos de viagens e viagens, de todo tipo de aventura.
Agora ela brincava com as mãos na areia fina e quente, era uma criança.
- “Nada me pertence, nem meu destino” – pensa ela.
Tudo na vida de Penélope é passageiro; tudo que ela aprendeu é que a existência é um movimento de vai-e-vem eterno, onde nada se pertence.
Diana chega; um longo abraço.
- “Pra onde vamos” – Pergunta Penélope.
- “Por aí” – responde Diana.
- “Quando?”
- “Já.”
Não havia necessidade de mais detalhes, elas se comunicavam por pensamento.
E quando chegaram na divisa da cidade decidiram parar para tomar fôlego...
ALEXANDRE COSTA

continua...
 
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"X" - capítulo 2
Dias depois vamos encontrar X parado, olhando para uma praia. Seus olhos se encontram no horizonte. Seus pensamentos além. X pensava, tentava entender como tudo começou. Mas por mais que tentasse não conseguia mais juntar as peças do quebra-cabeças que sua vida havia se tornado.
Ele precisava mais que nunca, antes que perdesse de vez a sanidade, encontrar alguém que o ajudasse a pôr um mínimo de ordem no que lhe restavade vida. X deixava para trás de si, pegadas na areia. Sua sombra o seguia, e isso era o máximo de conforto que ele se permitia. Uma sombra, era todo o seu patrimônio. Ele realmente estava perdido na vida. Ao fim do dia, já quase se entregando ao seu sono de andarilho, X vê alguém numa feira, pensa estar enganado, mas chega perto. Em meio à multidão, um homem usando uma capa de chuva já muito usada, quase tão suja quanto o paletó de X, destaca-se por sua altura, ele tem quase dois metro de altura, embora muito curvado, ele ainda chama a atenção.
X aproxima-se temerosamente, pensa que pode estar enganado novamente, afinal já se enganara tantas vezes que se espantaria de dessa vez se estivesse certo.
Lentamente X toca o ombro do homem. Quando este se vira para ver quem o tocara:
__ Istvan! - Consegue gaguejar X emocionado.
__Xavier! _ Espanta-se Istvan. Como você conseguiu me encontrar? A quarenta anos que vivo me escondendo pelas cidades, pelas estradas, como você, logo você conseguiu me encontrar?
__ Istvan, não estava procurando você, a muito deixei de lado a esperança de um dia voltar a ver alguém do seminário...
__ Não! _ Grita Istvan, quase histérico. Não diga mais nada. Alguém pode nos ouvir. Ainda deve haver mais seguidores. Ninguém está seguro ainda, ninguém. Nunca mais mencione o seminário.
__ Desculpe Istvan, mas éramos tão amigos naquela época, que pensei que poderíamos...
__ Xavier, entende de uma vez por todas. Nada mais vale à pena para ser lembrado, nada mais. Entenda, aquele tempo, graças a Deus, passou... Entenda, não quero falar com mais ninguém, não tenho nada de bom para recordar, não tenho mais nada para viver, assim como você e os poucos de nós que sobreviveram...
__Istvan, mas eu preciso desabafar, ou pelo menos entender o que significou a nossa cast...
__ Chega! - Grita Istvan, chega!
Istvan corre pela feira, empurrando as pessoas que encontra pelo caminho. X chocado, abaixa a cabeça, talvez envergonhado, pela sua situação, talvez pela lembrança do ocorrido a quarenta anos atrás. Desanimado ele vê Istvan desaparecer na multidão. Istvan, corre até perder o fôlego. Para. Encosta numa árvore, respira fundo, quando olha para trás ele vê o seu destino encarnado na forma de "Papai Boa-Noite". Um anão negro como a meia-noite, usando uma cartola de cetim brilhante, uma bengala com uma caveira de ouro na ponta. Seu sorriso congela Istvan.
__ Boa noite Istvan! Enfim nos encontramos. Valeu à pena seguir Xavier por todos esses anos. Não se assuste, não tenha medo, para onde você vai encontrará outros companheiros do seminário. "Papai Boa-Noite" levanta a sua bengala em direção a Istvan, que assustado, sofre um ataque cardíaco fulminante, e cai ao chão. A gargalhada do anão enche a noite.
Subitamente X sente um calafrio subir-lhe pela espinha. Ele pressente a morte de Istvan. Sentando-se num banco de jardim, X tira do bolso de seu paletó imundo uma cadernetinha ainda mais imunda, e risca mais um nome, o nome de Istvan.
__ Mais um. Quando chegará a minha vez? Com Istvan, já são dez os mortos.
X fecha os seus olhos e se entrega a perambulação noturna. Como ele costuma dizer para si mesmo, andar em piloto automático...
ROBERTO PRADO

continua...
 
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Quinta-feira, Junho 09, 2005
 
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Quer ganhar? Aposte no pior
Costumo dizer sempre: "QUER GANHAR? APOSTE NO PIOR."Nunca falha.
A miséria está sempre à nossa volta.
Não falo da miséria material, daqueles que vivem pelas ruas pedindo esmola, daquela menininha que vende balas nas filas de carros, ou (a grande novidade) os malabaristas de sinal de trânsito, que mesmo com duas (02), isso duas bolinhas, conseguem deixa-las cair no chão... Fim dos tempos. Mas a miséria de que falo agora é outra, é a que mais me enerva, irrita e enoja. Miséria moral, miséria de espírito. Mas vamos ao que interessa nessa história.Como já escrevi alguns dias atrás, minha mulher sofreu uma crise braba de alergia provocada por penicilina. Entupiu-se de remédios. Comprimidos, injeções, coitada está roxa. O corpo cheio de brotoejas, e uma coceira de enlouquecer. Como sou "das antigas" filho e neto de nordestinas (sim, tenho dupla nacionalidade), conheço um pouco de ervas e suas propriedades curativas. Saí procurando por uma árvore chamada Sabugueiro, ótima para banhos e chás que aliviam, quando não curam, esse tipo de manifestação na pele (coceira!). Um inferno para encontrar, haja vista que a moda hoje, é ter plantados em todas as partes da cidade, coqueiros. Todas as árvores de nossa infância foram arrancadas e em seu lugar, posto coqueiros. Depois de muito procurar, e com a ajuda de bons amigos consegui algumas folhas, outras tantas foram encontradas em feiras livres, a um "bom" preço. Pois não é que dia desses, vi em uma casa perto de onde moro, o bendito Sabugueiro. Avisei minha mulher, e quando ela saiu com a Bia (vide foto), nossa cachorra, aproveitou e tirou umas míseras folhas da árvore, que estavam caindo para o lado da rua. Isso foi num fim de tarde. Pois não é que no dia seguinte, a dona da árvore a arrancou a machadadas...? Se alguém conseguir entender essa demonstração cabal de ignorância, avareza perversidade, mesquinharia, estupidez, por favor me expliquem.
"O SER HUMANDO NÃO TEM MAIS SALVAÇÃO" Tenho dito!

ROBERTO PRADO
 
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Quarta-feira, Junho 08, 2005
"X" - capítulo 1
X seguia pelas ruas.Com seu paletó puído, com suas rugas profundas, com suas mágoas latejando. Dentro de seu paletó, nos bolsos, ele carregava um mundo de lembranças, nem todas gratas, algumas até se fosse possível, ele as jogaria fora. Nas suas rugas, havia histórias para, pelo menos, umas três vidas. Muitas coisas aconteceram em seus longos anos de vida. X seguia pelas ruas, sem direção, tendo por única companhia a sua sombra.Tinha por hábito andar sempre em direção ao sol, para que a sua sombra cuidasse de sua retaguarda. Com o passar dos anos, o corpo de X habituara-se a andar por conta própria, X seria capaz de avançar quilômetros e quilômetros, dormindo. No princípio espantara-se, não, assustara-se com essa capacidade. Muitas vezes, lembrava-se de ter adormecido em uma determinada praça de uma determinada cidade, e ao acordar estar andando em outra cidade, muitasvezes, a quilômetros de distância. Dormindo ele atravessava estradas movimentadas, ruas escuras, becos perigosos, ponte sobre rios revoltosos, trilhas sinuosas, à beira de precipícios profundos... Por muito tempo X teve medo de dormir. Ficava a cordado o máximo que podia, encharcava-se de café, esbofeteava a própria cara. Mas no fim, acabava dormindo e acordando em outro lugar. Enfim cedeu! Acordava em outro lugar, disposto, nunca sentia cansaço ou dores nas pernas. X seguia pelas ruas. Até que um dia, numa cidade...Qual? Quem saberia, para ele não existia mais pontos cardeais ou pontos de referência. Sim um dia numa cidade, numa avenida movimentada do centro, X pensou ter visto uma velho conhecido. E velho conhecido aqui não é força de expressão. X aguardou que o sinal ficasse verde . Muitos ônibus, caminhões, carros passavam em alta velocidade. X olhava para a pessoa e olhava de volta para o sinal. Nada dele ficar verde. A pessoa começava a movimentar-se, X angustiou-se. Verde. X começa a atravessar a rua, mas ao chegar do outro lado da avenida a pessoa já havia sumido. X suspira fundo. Cansado de mais um dia, X entrega-se ao sono, e segue em frente....CONTINUA

Roberto Prado
 
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Leia a partir de hoje o conto "X" de Roberto Prado.
 
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A origem de alguns de nossos costumes
Na Idade Média os telhados das casas não tinham forro e as vigas de madeira que os sustentavam era o melhor lugar para os animais - cães, gatos, ratos e besouros se aquecerem. Quando chovia, as goteiras forçavam os animais a pularem para o chão. Assim, a nossa expressão "está chovendo canivete" tem o seu equivalente em inglês em "it's raining cats and dogs" (está chovendo gatos e cachorros).

Aqueles que tinham dinheiro possuíam pratos de estanho. Certos tipos de alimento oxidavam o material, fazendo com que muita gente morresse envenenada. Lembremo-nos de que os hábitos higiênicos, da época, eram péssimos. Os tomates, sendo ácidos, foram considerados, durante muito tempo, venenosos. Os copos de estanho eram usados para beber cerveja ou uísque.Essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia induzida pela mistura da bebida alcoólica com óxido de estanho). Alguém que passasse pela rua poderia pensar que ele estivesse morto, portanto recolhia o corpo e preparava o enterro. O corpo era então colocado sobre a mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava em volta, em vigília, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí surgiu o velório, que é a vigília junto ao caixão.

A Inglaterra é um país pequeno, onde nem sempre havia espaço para se enterrarem todos os mortos. Então os caixões eram abertos, os ossos retirados, postos em ossários, e o túmulo utilizado para outro cadáver.Às vezes, ao abrirem os caixões, percebia-se que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo. Assim, surgiu a idéia de, ao se fechar o caixão, amarrar uma tira no pulso do defunto, passá-la por um buraco feito no caixão e amarrá-la a um sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo, durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. E ele seria "saved by the bell", ou "salvo pelo gongo", expressão usada por nós até os dias de hoje.
 
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Terça-feira, Junho 07, 2005
 
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Segunda-feira, Junho 06, 2005
O Diário de Penélope


1º Dia

Penélope acorda. Olhos vermelhos, mornos, vagarosos, indecisos.
Quatro paredes e um teto; boas vindas de um novo dia.
Boca amarga e língua áspera;
“nada de novo” – pensa ela.
Fora as porções de batatas fritas, álcool, e o LSD que tomou na noite passada, nada contêm novidade em sua vida.
Mas ela tem de seguir em frente.
Próximo passo: banho.
Penélope molhada, nua no quarto, olhos viciados no espelho.
É segunda, e a segunda não perdoa ninguém, fere.
Próximo passo: café.
Mãos firmes e café forte para o começo do dia, quem sabe, depois das seis, o dia melhora.
Penélope é notívaga desde criança. Seus pais sempre tiveram dificuldades em colocá-la para dormir. Gosta de luzes ofuscantes, leitura pesada, se amarra em química e odeia gramática.
“Quantas pessoas não são iguais a mim?” – pensa ela.
Próximo passo: ir para o trabalho.
Ônibus cheio, paciência perdida debaixo de algum banco daqueles, nem ela sabe.
Mas a segunda não perdoa ninguém, fere.
“Quem sabe, lá no emprego, alguém não me dá um bagulho?” – pensou ela.
Penélope é só, por convicção.
“Quem sabe de mim sou eu” – pensa ela.
Postes e outdoors na contra-mão, eles passavam tão rápido para ela. Odiava aquele trajeto diário em pé no coletivo. Uma mão para se segurar, a outra para afastar os engraçadinhos.
Próximo passo: marcar o ponto.
O relógio digital marcava agora 7:58am. Penélope nunca se atrasava e nunca chegava antes das 7:50am.
“Nada me pertence, nem o tempo que alugo para viver meus dias” – pensa ela.
Diante da tela seus olhos fixos liam dezenas de e-mails recebidos na noite anterior. Um se destacava:
>Pê
>Vou viajar e preciso de você comigo, quer?
>ass: Diana
Ela olhou ao redor, depois a sala da chefe, sobre os ombros mais uma vez e digitou:
>Di
>Nada me pertence, nem as estrelas que uso para decorar o meu céu”.
>ass: Pê
Era um sim.
Penélope imprimiu o e-mail de Diana, colou na tela do micro, pegou sua bolsa, calçou suas sandálias e saiu sem falar com ninguém.

Alexandre Costa
continua...
 
posted by Alexandre Costa at 10:26 AM ¤ Permalink ¤ 1 comments
Depiladas
No começo
Tesoura e gilete
(ou teriam a coragem de usar navalha?)
Depois, graças a Deus
a G II
Hoje a G III, e
Oh! maravilha das maravilhas!
Depilação à laser.
Como elas ficam bonitinhas
Tão bem aparadinhas...

ROBERTO PRADO
 
posted by Alexandre Costa at 9:40 AM ¤ Permalink ¤ 1 comments
Sexta-feira, Junho 03, 2005
 
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posted by Alexandre Costa at 1:26 PM ¤ Permalink ¤ 1 comments
35.849.249 galinhas
35.849.249 galinhas seguem em linha reta numa estrada qualquer,
à sua frente abre-se um precipício muito profundo.
Numa esquina qualquer em uma parte qualquer desse mundo (vasto mundo)
Uma doce velhinha lê a Odisséia (em uma edição hebraico-aramaico).
Não muito longe dali, o sol se põe...
No mar um peixinho é engolido por um peixão
Cecilio Alaúde vende cocada
No céu nada de novo
No precipício a primeira galinha cai
Seguida de outra
E mais outra
E outra mais...
A vida segue
E galinhas continuam caindo
Após cair a última
Constatamos que elas não fazem diferença alguma.
Nem isso.
ROBERTO PRADO
 
posted by Alexandre Costa at 10:54 AM ¤ Permalink ¤ 2 comments

Confira este site muito interessante onde outros blogueiros escrevem seus microcontos, além dos nossos é claro!
 
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posted by Alexandre Costa at 8:44 AM ¤ Permalink ¤ 0 comments
microcontos


Não conhecia ponto final, só reticências. Duro diálogo!
Intelectualmente falando, sou superior a esse boçal!
...e o beija-flor pousou em seus lábios. Labirinto de mel.

ROBERTO PRADO
 
posted by Alexandre Costa at 8:41 AM ¤ Permalink ¤ 0 comments
microcontos


Ele era bom de memória, só não se lembrava disso!
Metódico, parou na esquina e se perdeu no caminho!
Correu os olhos em seu corpo, até tropeçar em sua boca.

ALEXANDRE COSTA
 
posted by Alexandre Costa at 8:37 AM ¤ Permalink ¤ 0 comments
O grande romance
O amigo Alexandre Costa terminou o seu conto Faca Amolada. Li. Gostei. Fiquei pensando com os meus botões, porque não escrevo algo igual, talvez melhor, mais emocionante. Mais assustador? Não sei. Realmente não sei. Imagino um conto de terror, com personagens bizarros, bisonhos, macabros. Mocinhas virginais, quiçá sonhadoras e apaixonadas, que vítimas do destino seriam transportadas para as mais infernais situações, banhadas em lágrimas, sangue. Onde diante de uma situação, que se apresenta sem saídas, elas pensariam em suicídio, talvez cortando os pulsos, tomando cianeto, deixando criancinhas órfãs e abandonas a um destino ainda mais cruel...
Imagino minhas leitoras (eu e minha ilusão em leitores e leitoras) roendo as as unhas, arrancando cabelos, gritando para que os filhos parem com o barulho que atrapalha a sua leitura, prometendo matar a vizinha que deixa aquele cachorro latindo...
Por capítulos sem fim, eu faria as mocinhas sofrerem, o vilões torceriam o bigode rindo desbragadamente a cada vilania. Crianças e mais crianças sendo mandadas para orfanatos, vendidas posteriormente como mão de obra escrava para alguma mina de diamantes na África do Sul, ou seringais do Amazonas. Mocinhos sempre presos em armadilhas mortais, mas escapando no último segundo, para caírem em outra armadilha ainda mais mortal. E dependendo do meu humor, eu poderia mata-los ou não. (Ah esse meu humor...). Sim eu gostaria de escrever como o amigo Alexandre, mas fico devendo esse romance para humanidade e minhas leitoras (Não, não creio em Papai Noel)!

ROBERTO PRADO
 
posted by Alexandre Costa at 8:21 AM ¤ Permalink ¤ 2 comments
Quinta-feira, Junho 02, 2005
 
posted by Alexandre Costa at 3:44 PM ¤ Permalink ¤ 0 comments
Faca amolada - epílogo
Uma luz incrivelmente forte tomou conta do lugar, ele caiu com uma forte dor no peito. Abriu o olhos e estava novamente no chão da cozinha... levantou-se, olhou para suas mãos encharcadas de sangue e gritou, depois olhou o chão e a faca amolada caída a seus pés. Caiu novamente de joelhos no chão da cozinha, as mãos sujas de sangue apertando-lhe os olhos. Um pensamento martelou em sua cabeça: eu a matei!
O revolver com uma única bala ainda estava em cima do corpo dela, o tambor aberto... ele não achou outra bala para ele... correu até a cozinha e pegou uma faca, cravou-a no próprio peito duas vezes...não conseguiu a terceira...ele já estava morto!

Alexandre Costa

FIM
 
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microcontos
Nem nim nem são. Não se comprometia jamais.

ROBERTO PRADO
 
posted by Alexandre Costa at 1:55 PM ¤ Permalink ¤ 0 comments
Qualquer boca
Qualquer boca
Uma boca
Qualquer boca
Carnuda com batom
sem batom
com sorriso
ou triste
faminta
sedenta
ou mesmo saciada...
Uma boca qualquer boca
Sua ou dela da prima dela, ou da amiga da prima daquela conhecida da tia
dela.
Qualquer boca,
qualquer boca mesmo!
Menos essa sem dente!

ROBERTO PRADO
 
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Quarta-feira, Junho 01, 2005
 
posted by Alexandre Costa at 10:33 AM ¤ Permalink ¤ 0 comments
Faca amolada - 5
- Sim. Você me matou! Mas por que?
- Eu não queria! Eu a amava muito.
- Eu sei!
- A sua beleza e ternura, a sua benevolência, o seu caráter. Eu não suportei. Eu era pequeno demais para você!
- Mas eu ainda te amo.
- Não faça isso comigo, não me perdoe por favor!
- Mas, por que?
- Onde está seu ódio, seu rancor? Eu não mereço seu amor nem seu perdão. Por que você não me odeia? Por que?
- Eu não sei fazer isso. Você sempre foi uma boa pessoa. Não havia motivo para tudo isso.
- Eu te matei porque eu te amava demais. Porque não conseguiria viver ao seu lado sem poder ser eu mesmo também. Te matei porque ninguém seria capaz de dar o amor que você merece. Não seria uma vida digna se não pudessem lhe dar o que você dá. Eu poupei você do sofrimento que seria toda a sua vida.
- Isso não é verdade... eu era feliz. Mas agora estamos juntos novamente para sempre.
- Não é verdade! Por que você diz isso?
- Porque agora nós estamos do mesmo lado.

Alexandre Costa
continua...
 
posted by Alexandre Costa at 10:04 AM ¤ Permalink ¤ 0 comments
O Fim
No alto de um caixote de cebolas
Um pastor aos gritos
Reclama
Declama
E profana a paciência dos passantes.
Prega que está próximo o fim
Mas nada chama mais a tenção que a striper
Que se desnuda num jardim
Perfumado de acácias

Roberto Prado
 
posted by Alexandre Costa at 10:02 AM ¤ Permalink ¤ 0 comments