Chovia torrencialmente a dez dias, quatorze horas e trinta e cinco minutos. Os segundos eram contados pelos pingos caindo das telhas. Ping ping... A umidade como lagartixas, subia pelas paredes, os móveis já estavam ficando verdes, as samambaias migravam dos vasos, para os cômodos da casa. O frio estava em cada canto, em cada osso, doendo uma dor incômoda e irritante. O cachorro, já magro de fome, fedia, os sapatos, mofados cheiravam mal. A comida estragara. A cortina de chuva impedia a claridade do dia de entrar, deixando o ambiente claustrofóbico, lá fora, o solo estava sendo erodido, a força das águas estava levando a terra, deixando um canal barrento e escorregadio. O círculo estava se fechando. Não era possível sair de casa, e estava se tornando impossível permanecer dentro. Dez dias, dezesseis horas de chuva. A força do vento forçava as janelas, dando às gotas a impressão que eram projéteis tentando perfurar, estilhaçar os vidros. Vários pássaros mortos, e já putrefatos, boiavam nas poças d'água. A eletricidade caíra no primeiro dia, a luz agora era fornecida por um lampião a querosene, que já estava acabando. O frio aumentava, por causa do vento encanado que entrava pelas frestas, e pelos cantos a água da chuva empoçava. Desespero, impotência, a certeza do fim. Esses sentimentos os afogavam. Dez dias, vinte e três horas de chuva, ventos, raios e trovões...Escurecia. A comida estragada fedia ainda mais, aumentando o desespero e fome. Fome. Encurralados, famintos e... Uma trovoada fez o chão tremer, o lampião caiu e apagou-se. Trevas, iluminadas por raios, e sombras fantasmagóricas. Choros. Onze dias de chuva. O solo, lá fora, cedeu mais um pouco, não há mais como sair de lá com o carro. Se possível fosse sair dali. A corredeira produzida pela chuva, agora carregava árvores e os animais mortos. O vento não só não diminuíra, como ainda, levara mais umas telhas, fazendo com que a chuva acabasse de molhar os hóspedes da casa.
A força das águas, agora represadas por dentro, começam a forçar as paredes. Desesperados os hóspedes, com copos e panelas, começam a batalha para tentar esvaziar a casa. Em debalde lutam com força das águas. A paredes de madeira começam a ceder, e vento lá fora, como que com uma consciência diabólica, começa a soprar mais e mais. Cada vez mais forte. A casa começa a ruir para o total desespero dos hóspedes. Inclina. A janelas cedem. A chuva fria e forte entra, enregelando as mãos, dificultando ainda mais o impossível projeto de tentar salvar, o mínimo que fosse do que restou do abrigo. Uivando, no escuro, o vento dá uma definitiva rajada, a casa por fim cede. A força das águas, somada ao vento leva todo entulho montanha abaixo. Sem sobreviventes, sem restos, sem rastros, a natureza rejubila-se. Um rio de destroços a descer furiosamente a montanha. Onze dias de chuvas torrenciais.
ROBERTO PRADO










































