
Tocou o despertador.
Levantou-se. Coçou a cabeça, espreguiçou, coçou o saco, bocejou.
Lentamente, dirigiu-se ao banheiro. Banhou-se. Escovou os dentes e barbeou-se, tudo de uma vez, sob o chuveiro. Enxugou-se e de passagem pelo espelho, fez um desenho no vidro embaçado pelo vapor.
Tomou café com pão, manteiga, um pedaço de queijo branco (minas?). Chupou uma laranja. Beijou a mulher, afagou a cabeça do cachorro e saiu para o trabalho. Desceu os quatro andares pelas escadas, era o seu jeito de manter-se em forma, mas na volta subiria pelo elevador.
Muito cansado. Já na rua dirigiu-se ao ponto de ônibus. Três quarteirões dali. Vinte minutos depois o coletivo chega apinhado de gente. Com esforço ele consegue penderur-se à porta. Segue.
Às oito e cinco ele chega ao trabalho. Atrasado. Sorri amarelo para os colegas, sacode os ombros e diz entre dentes: __É! O ônibus, sabe como é né? Dirige-se à sua mesa atolada de papéis. Gaveta com o serviço da semana passada.
Telefone toca. __ Alô? Nada demais, nem de menos, a mesma coisa de sempre. Sob o olhar reprovador dos colegas de trabalho ele levanta-se e vai tomar o primeiro café do dia. Do copo de plástico branco sobe a fumaça do café quentinho (feito à meia hora), descuidadamente ele deixa o copo queimar-lhe os dedos. Instintivamente joga o copo para cima. O café quente cai-lhe nas costas. Ele grita. Pula. Tenta jogar água sobre a camisa para aplacar a queimadura. Com muito escândalo ele consegue. A camisa agora está molhada, manchada de café, e os colegas riem às suas custas.
Ele olha para o relógio. __Oito e meia da manhã! Desanimado ele vai ao banheiro. Tira a camisa, tenta secá-la com as toalhas de papel. Não consegue. É claro.Volta para a sala com a camisa molhada, manchada de café e com pedaços de papel grudado. Liga o ventilador na esperança de secá-la e não pegar um resfriado. Desajeitadamente ele senta-se à sua cadeira e tenta se concentrar no trabalho. Toca o telefone.__ Alô. Número errado, queriam saber se era ali que fazia CPF. Era assim o dia inteiro, números errados.
Ele olha o relógio, quinze longos e agonizantes minutos haviam se passado desde que ele chegara ao escritório. Vai à janela. Sete longos e tentadores andares. Um dia...Toca o telefone.__Alô?Banco. O gerente o estava cercando a vários dias. Já estavam se esgotando o seu estoque de desculpas. Cheque especial, cartão de crédito. Esposa com acesso a eles. Sobre a mesa a foto do cachorro. Olha e sorri. Olha para a janela, os olhos ficam vagos, sonhadores e esperançosos.
__ Sempre há uma saída. Ele murmura esse mantra há dez longos anos. Olha para o relógio da parede, olha para o seu relógio de pulso, vai à janela, e olha o relógio da padaria.
__ O tempo não passa. Pensa em tomar um café. Mas o desânimo fala mais alto e ele fica largado em sua cadeira. Olha para janela e suspira. De repente a porta abre e por ela entra Dona Martha, a gerente. Ele sente um calafrio subir-lhe pela espinha. Lembra-se dos papeis na gaveta. Lembra da promessa de despacha-los na semana passada. Suas mãos tremem. O suor brota em sua testa. Ele consegue, com esforço gaguejar um bom dia. Dona Martha o ignora. Ele suspira aliviado. Vai ao banheiro passar uma água no rosto e tentar recuperar a calma. Resolve tomar o café. Vai à copa. Pega um copo de vidro, coloca o café no copo, três colheres de açúcar, mexe devagar. Sorve-o lentamente. Evita correr o risco de queimar-se outra vez. Volta à sua mesa. Precisa tomar coragem para começar a trabalhar. Respira fundo. Mas não consegue. Os colegas o olham com desagrado. Todos o carregam nas costas. Injusto. Ele pensa em gritar com todos à sua volta, mas lhe falta iniciativa. Fraco. Sentado na cadeira, ele divagando olha para janela. Sete andares. Sete andares é tudo o que ele precisa. Nada mais que isso, sete andares.Toca o telefone. Finge que não ouve e não atende. O telefone continua tocando, mas parece que ninguém vai atendê-lo. Toca mais e mais... DonaMartha aparece na porta. Todos correm para atender o telefone. Na balbúrdia ele tropeça numa cadeira no meio da sala. Ele voa pelo ar, leve, paralisado. Os colegas e Dona Martha vêem-no deslizando em direção à janela. Ele ainda tem tempo de pensar:__Sete andares.
continua...
ROBERTO PRADO