Mistério...

Tudo começou de uma forma bem simples, quase estúpida, mas de qualquer forma, trivial. Sumira uma cadeira. Cadeira some? Desaparece? Escafede-se? Some no éter?
Positivamente, não! Mas não falaremos mais nessa cadeira, afinal isso não é mote para nenhuma história. Sigamos.
Assim, a cada dia alguma coisa estranha acontecia. Rádios ligavam-se sozinhos, em estações diversas e com o volume de som sempre alto, num irradiando futebol, noutro a pregação de um pastor evangélico qualquer, outro tocando músicas de gostos duvidosos. Depois a coisa foi degringolando ainda mais. Até que...
Chegou em casa e encontrou debaixo da porta, uma conta atrasada, cobrando o alpiste dos curiós.
__ Que curiós, meus Deus? E de repente, do nada, uma babel de curiós começaram a cantar. Ele assustado, encostou-se à parede, e com os olhos arregalados, se arrastando, foi para o banheiro. Quem sabe um banho...?
Ao terminar o banho, ainda molhado, água escorrendo pelo corpo, estende a mão para apanhar a toalha. Apalpa o tecido, estranha a sua textura, mas mesmo assim o puxa! Qual não é a sua surpresa ao ver:
__ A bandeira do Íbis???
Não, não, não.
Senta-se no chão e começa a rir. Pára a risada quando a primeira rã, gelada, cai em seu pescoço. Salta, nu em pelo, corpo ainda escorrendo água, corre para o seu quarto. Da sala ainda se ouve o canto estridente dos curiós, do banheiro o coaxar das rãs, que já começam a invadir o corredor, pulando uma sobre a outra. Pulando para cima da cama, esconde-se, ainda molhado, debaixo das cobertas. Treme. De repente, toca o telefone. Espantado, ele, como que impulsionado por uma mola, pula da cama, corre para atender, escorrega nas rãs, e com uma expressão de asco, tenta chegar ao aparelho.
__ Alô?
Do outro lado da linha uma voz lhe diz secamente:
__ Cuidado com o japonês. Clic.
Nada mais foi dito.
Mais atarantado que antes, ele corre à janela de sua sala e olha para rua procurando algum japonês que pudesse colocar a sua vida e perigo. Coçando a cabeça desesperadamente, ele se pergunta o que estaria lhe acontecendo. O dia, dada as circunstâncias, começara tão bem...
Claro, não fosse a cadeira que sumira...
Torna a olhar pela janela. Nada de japonês, ou chinês, ou coreano, ou qualquer um de olhos puxados. As rãs chegam na sala. Morrendo de nojo, ele senta-se no batente da janela. O canto dos curiós começa a atrair outros pássaros que também iniciam uma cantoria infernal.
Os vizinhos começam a reclamar e gritar. No apartamento da frente, donaMaria Luíza, histérica, desmaia quando uma das rãs, que já começam a se espalhar, entra em seu apartamento, mas isso é problema dela, não nosso. Sigamos.
Olhando para a rua, ele se pergunta, o que estaria acontecendo?
Da cozinha, um sinal estridente começa a soar.
__Droga, só faltava dar pau na geladeira!
Dando um grande impulso, ele pula do batente da janela, para a luminária no teto, feito um tarzan urbano, ele salta sobre os batráquios, e dando uma pirueta em pleno ar, aterriza no chão da cozinha. Olha a geladeira, moderna, comprada recentemente. Todas as luzezinhas piscando e apitando. Abre a porta, e para a sua surpresa (como ainda haveria uma reserva de surpresa nesse homem?) uma cascata de água gelada, refrigerantes, verduras, legumes, frutas, carnes, e inverossímil dos inverosímeis, caranguejos vivos avançam com suas pinças em riste em sua direção.
Tomado de um pânico-histérico, ele enrola-se na bandeira do Íbis Futebol Clube e corre para rua. Na sua fuga desenfreada, deixa a porta de seu apartamento aberta, o resto das rãs espalham-se pelas escadarias. Passando pelo apartamento de Dona Joana Eleocádia, síndica há dez anos, prende a bandeira num vaso enferrujado, esse rasga o tecido, ainda desesperado, ele continua correndo, agora nu, e deixando à mostra e a execração pública uma estranha tatuagem de uma borboleta sobre a sua nádega esquerda, corre em direção rua, quando:
__ Não!
Ele grita, quando vê seu Toshiro, vendedor de banana. Fornecedor oficial de Manoel Mendes, dono da quintandinha localizada no térreo do edifício. Mas seu Toshiro não se deixa intimidar pelo grito dele e diz;
__Não adianta tentar fugir e nem bancar louco, trate me pagar pelas bananas que eu lhe vendi semana passada.
Ele pensa: Então era esse o recado?
ROBERTO PRADO