Dessa vez Dona Dedé surta de vez.
Época de Copa do Mundo, aquela barulheira toda, fogos, bandeirinhas, discussões bestas, brigas sérias, a televisão ligada na hora da sua “siesta”, ou como ela costuma dizer, orgulhosa e com a mão esquerda cobrindo os lábios, já secos e murchos:
- Meu sono de beleza!
Futebol virou febre.
Doidinho só fala nisso, e passa o dia trocando figurinhas com seus amiguinhos (todos imaginários é claro).
Dona Dedé fez o possível e o impossível para fugir desse inferno, refugiando-se na Igreja, participando de novenas, vendendo santinho, mantendo a maior parte do tempo ocupada com a sua fé.
O pobre São Jorge já não agüenta mais tanta reclamação dela, o cavalo branco não para mais de bufar, e o dragão, coitado, já nem mais solta fogo pelas ventas, de tanto que chora com a aflição da beata senhora.
Mas...
A próxima partida da seleção é contra quem?
Quem?
Sim contra o Japão!
A velhota está louca, não pode ver nada com as cores vermelha e branca. Acorda depois da dez da manhã para não ter que ver o sol nascente...
Vive resmungando pelos cantos da casa. Ninguém sabe se ela está rezando ou rogando pragas. Mesmo à noite dormindo os sobrinhos ouvem a velha falando com o falecido, que por alguma razão, ainda desconhecida, ela atribui aos japoneses, coreanos, chineses, ou qualquer oriental em geral.
Doidinho acompanhando o drama dos pais, que geralmente já são tensos, agora estão uma pilha de nervos.
Algo acontecerá eles tem certeza disso!
Esconderam a televisão. Retiraram todos os aparelhos de rádio da casa, pediram aos vizinhos (que há anos acompanham o drama do casal) que evitem gritar muito durante a partida. Todos os discos do velho Gardel estão polidos, limpinhos para serem tocados à exaustão, tudo para que a velha não dê o desprazer de um velório durante a Copa.
Mas...
Doidinho, vendo o progresso dos pais, sentindo a calmaria no velho casarão, dá um jeitinho de perturbar Dona Dedé.
Entra no quarto dos pais, que atarantados com a centenária parenta esqueceram de trancar.
Abre as gavetas, revira o guarda-roupa...
Lá embaixo, Dona Dedé, sentadinha em cadeira de balanço, fingindo que tricotava, olhando fixamente para a porta da frente e a janela, esperando a qualquer momento uma invasão nipônica, quase não respirava.
Os sobrinhos na cozinha, com as mãos trêmulas, tentam, quase em vão, tomar um de chá erva-doce, acompanhado de três comprimidos calmantes.
Há muito tempo que uma xícara de chá não era acompanhada de biscoitos. Prova disso é Biscoito, o papagaio, que não faz outra coisa na vida além de dormir no seu poleiro.
Silêncio, tenso, mas silêncio.
Quando Doidinho, vestindo um robe branco de seda da mãe, uma gravata vermelha do pai amarrada na testa, calçando uns tamancos de madeira, que só Deus sabe onde ele encontrou, deslizando pelo corrimão da escada, segurando um cabide de madeira à guisa de kataná , grita:
- Banzai!
Os pais na cozinha, abraçam-se, põem-se a chorar convulsivamente, a mãe morde um tufo de cabelos, e juntos, deixam as xícaras caírem no chão.
Dona Dedé possessa, grita:
- Ishiro! - e vai ao chão.
ROBERTO PRADO