Doidinho e Dona Dedé Percebem Algo Errado.
Na janela do velho casarão, com os cotovelos apoiados no batente, Dona Dedé afaga os cabelos de Doidinho, que tristinho chora baixinho, perguntando:
__O que será que houve Tia Dedé? Ele tá chateado com a gente? Foi alguma coisa que eu fiz?
Suspirando profundamente, a encanecida senhora responde:
__Não sei meu filho, não sei. Olho para o céu todos os dias, leio as cartas do Tarô, minha bola de cristal, na borra do café... Mas nada, nada, me responde...
Na janela do velho casarão, os dois suspiram.
A quase centenária senhora, deixa uma furtiva lágrima, escorrer pela face enrugada, ao perceber que Doidinho não saiu correndo para procurar suas cartas de Tarô nem tão pouco a bola de cristal (que não existe)! Dona Dedé murmura:
__...errado demais. Será o fim?
Em volta da janela, as paredes, os móveis, e tudo mais parece desvanecer-se, Biscoito, o papagaio cala-se.
O silêncio abrange tudo!
O ÚLTIMO POEMINHA DE DOIDINHO E DONA DEDÉ.
Na casa
Não mais loucuras
Não mais insanidades
Somente a certeza do certo
Do lógico
Do esperado
Acabaram-se as surpresas
Findou o absurdo
Os barulhos
Ruídos fantasmagóricos
O real reina absoluto
Tudo é como deve ser
Deveria ter sido sempre
E para sempre será
Sem dúvidas
O inesperado, foi-se
Para todo o sempre
O pai de olhos vazios
A mãe de olhar distante
Na carteira, a foto de Doidinho sumiu
Na parede da sala, o grande quadro à óleo de Dona Dedé
Já não está
Teria sido, tudo o que viveram, um porre Homérico?
Uma ilusão?
Uma graça divina, desperdiçada?
A vida, embora sossegada
Agora é cinza
O que é, é
O que tem ser, é
De mãos dadas
Com as vidas sem rumo
O pai e mãe, sem se falarem
Perguntam-se:
__O que é de Doidinho e Dona Dedé?
...e lá no éter
Dona Dedé sorrindo, está com Doidinho em seus braços
E com as asinhas brancas cobrindo seu corpinho
Ele dorme o sono dos anjos
Para os pais a vida segue
Mas, para onde?
E para quê?
Fim
ROBERTO PRADO
(ESPECIAL PARA CONTOS & CULTOS)