.
.
I
3 milésimos de segundos antes de apertar o botão do elevador que o levaria até seu destino, ele hesitou. Ficou ali parado, pensando no que seria melhor naquele momento.
Não havia números e sim destinos em cada botão.
- Qual apertar? – perguntou a si mesmo.
Não seria uma decisão fácil ele sabia. Muitos outros que haviam entrado ali, não conseguiram cumprir seus destinos.
- Viver é complicado e escolher é ainda mais. – disse uma senhorinha que estava no fundo do elevador.
- Eu não havia notado a senhora aí antes? – disse ele, encabulado.
- Talvez por causa do meu tamanho. Sou baixinha mesmo, quase não alcanço as coisas quando preciso delas.
- A senhora vai a algum lugar?
- Eu estou aqui há muito tempo e, como lhe disse antes, sou baixinha e não alcanço certas coisas. Gostaria de ter tido a chance de apertar um desses botões, mas...
- Sim, entendi! – disse ele percebendo que a senhora precisava da ajuda de alguém.
- Eu já escolhi o meu, meu filho. – disse ela com um certo ar de decepção na voz e, tirando um caderninho da bolsa, anotou o dia e a hora em que ele havia entrado no elevador, perguntando.
- E você, já escolheu o seu?
- Não. Ainda não! – respondeu.
- As escolhas não são fáceis de serem feitas e, bom seria se houvesse alguém que as fizesse para nós. Você não acha? – e agora havia algo estranho na voz daquela mulher.
- É! – respondeu com um tom carregado de dúvida.
- E não é assim quando nascemos? Nossos pais escolhem a cor de nosso enxoval, o tipo de roupa que vamos usar, a hora em que devemos estar de volta em casa, se alguém é bom ou não para nós, qual a melhor escola, o que devemos comer...
- É. A senhora tem razão! – disse interrompendo o raciocínio da mulher.
- Se era assim antes, por que não poderia ser agora também?
E ao olhar os botões no painel, pensou que poderia ser assim agora também. A maioria das escolhas de sua vida tinham sido frustradas até aquele dia, arrependia-se de quase todas as decisões que tomou.
Seria hoje, com a ajuda de alguém, que ele finalmente poderia acertar?
- Há quanto tempo a senhora vem aqui?
- Todos os dias de minha vida e da vida dos outros.
Poderia soar estranho a qualquer pessoa aquela resposta, mas ele não entendeu a gravidade das palavras na voz daquela mulher.
Concentrado em seus problemas, só pensava em se dar bem na vida.
3 milésimos de segundos antes da porta se fechar ele a segurou.
- Não estou pronto ainda para uma decisão! – disse olhando para a senhorinha no fundo do elevador.
- Por que não? O que você tem a perder hoje, que já não tenha perdido antes?
Aquelas palavras soaram como mil sinos em sua cabeça.
Havia algo, que ele não entendia, que o mantinha preso àquela mulher. Soltou a porta do elevador, que se fechou lentamente.
A voz metálica e impessoal do computador pedia: “aperte o botão da sua escolha por favor”.
E a mensagem se repetiu outras duas vezes antes de ele perceber que algo estava acontecendo.
- Você ainda não sabe qual destino escolher mocinho? – perguntou a senhorinha mais uma vez.
Ele não respondeu, ficou parado, fixo no olhar dela, preso no tempo.
(continua)...