Há quatro dias que não dormia, precisava terminar o trabalho que lhe era enviado aos poucos, página por página. Os assistentes entravam em sua sala, eram dois. Um lhe entregava as páginas pares e o outro as ímpares. Ele preenchia os campos em branco, carimbava e rubricava cada uma delas, mas a cada nova página, uma outra era adicionada em seguida.
Seus dedos duros, quase sem movimento nas articulações, seus olhos fundos, a coluna arqueada, o nariz quase tocando a mesa de trabalho, mas o serviço precisava ser concluído.
As horas corriam e os dois assistentes entravam a cada sete minutos com uma página nova, que era adicionada a anterior, carimbada, rubricada e despachada.
Seus movimentos eram cada vez mais lentos, seus pensamentos condicionados, sua vida não estava mais em suas mãos.
Ele era e sempre foi assim, não tinha medo do trabalho, diziam dele que nunca havia deixado serviço pendente, e que nunca havia atrasado um despacho.
Os dias passaram e as páginas já não eram mais trazidas pelos assistentes, brotavam em sua mesa como mágica.
A cada carimbo de despacho rubricado uma nova folha materializava-se a sua frente. Uma após a outra durante dias e dias.
Ele as despachava com um leve sorriso no canto da boca e um orgulho secreto na alma.
A cada nova folha um novo desafio que era vencido assim que assinava na linha em branco. E quando se vence um desafio um novo se cria para que se mantenha viva a alma. Não há outro modo de se continuar, de se perpetuar sem eles.
Aquilo era uma tarefa, um propósito, um tema, um caminho, um destino, um degrau.
Assim como ele luta e vence cada nova página, o mundo também vence e se comporta da mesma maneira.
Não há saída e não há como evitar o entardecer e o fluir das águas.
Mil dias se passaram sem que ninguém notasse seu serviço, oito milhões de páginas foram carimbadas, rubricadas e despachadas, e novas páginas surgiam do nada. Uma seqüência interminável de ações coordenadas mantinha seu corpo e sua alma em plena atividade. Ele era um fantoche guiado por laços invisíveis.
Até o fim de seus dias ele despachou cada uma das folhas que surgiam em sua mesa, até a última rubrica ele honrou seu serviço, até o último suspiro ele cumpriu seu dever.
E ainda hoje, mil anos depois de sua morte, brotam folhas e mais folhas em sua mesa para serem carimbadas, rubricadas e despachadas.
Porque não há como parar o entardecer nem o fluir das águas.
ALEXANDRE COSTA
