Quinta-feira, Março 29, 2007
SANDRA
Duas voltas na chave, eu estava em casa, e lá fora uma chuva fina me lembrava o que Sandra me disse horas antes.
- Vai chover e a chuva vai levar você.
Mas como ela poderia saber?
Nossos encontros sempre foram casuais, às vezes aconteciam quando pensávamos um no outro e sempre terminavam quando uma fina chuva começava a molhar o chão.
Vez ou outra ficava mais tempo, mas só até que a chuva me levasse embora.
Sandra sempre dizia que nossa relação era como chuva de verão: rápida e passageira.
Mas ao mesmo tempo era intensa e nos deixava exaustos no fim.
Da janela eu olhava a chuva lá fora, e tentava entender por que as coisas aconteciam daquela maneira.
Nosso encontro daquela tarde foi num café na Rua das Magnólias, um lugar aconchegante e discreto.
Mas não precisávamos de discrição, Sandra sempre me dizia que éramos um do outro e que todos deveriam saber.
Infelizmente nunca podemos ficar juntos mais que algumas horas, até que a chuva caísse e me levasse embora como uma maldição.
Num desses encontros pedi a ela que não me deixasse ir, já que isto acontecia sem a minha vontade.
Pensávamos que um pacto pudesse nos salvar daquele destino cruel.
No quarto, embaixo dos lençóis fizemos juras de amor e nos preparamos para enfrentar a chuva que começava a cair.
O doce som que embalava nossos corpos nos fez adormecer.
Lembro que acordei só no sofá da sala e lamentei que Sandra pudesse estar agora longe demais de uma outra chance para nós dois.
E então, a chuva fina se transformou em uma tempestade com ventos fortes que cantavam enquanto passavam pelas árvores da rua, pareciam dizer o nome dela.
Foi quando um raio seguido de um grande estrondo caiu bem perto, que ouvi baterem na porta.
Sandra estava ali, na minha frente, sorrindo como uma fada sorri, e dizendo que foi a tempestade que a trouxe até mim.
As coisas acontecem com ou sem a nossa vontade, acontecem por uma vontade maior que nos mostra e nos guia, ora vem mansa como garoa, ora vem forte como um trovão.
E desde esse dia vivemos como um só.
Em nossos encontros a chuva fina continua a me levar embora, para depois engrossar e trazer Sandra de volta, num grande estrondo.

ALEXANDRE COSTA

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posted by Alexandre Costa at 12:11 AM ¤ Permalink ¤


5 Comments:


  • At 10:25 AM, Blogger Mão Branca

    Uepa.
    Na área para um oi.

     
  • At 10:52 AM, Blogger Ranzinza

    Vc sabe o significado da chuva no cinema indiano?

     
  • At 4:00 PM, Blogger Marla de Queiroz

    Fiquei com o barulhinho de sentimento escorrendo, feito quando se está no meio da trilha de uma floresta e algo anuncia que a cachoeira está bem perto...

    Lindos seus textos.
    Adorei a visita.

     
  • At 6:41 PM, Blogger Cecília Braga

    Sentimento feito correnteza. Ondas que esculpem as pedras. Há mar.Por vezes calmaria, outras Tsunami.
    Visita danada de boa!
    =*

     
  • At 8:12 PM, Anonymous sandra

    Ficou lindo!

    Só posso dizer obrigada e te amo!

    Beijos