ENTRE NÓS (não sei)Você pode me abraçar, dizer olá, gritar bem alto no meio da rua ou sussurrar no meu ouvido.
Você pode até me abraçar sem pudor ou beijar meus lábios num gesto de liberdade.
Você pode dizer a todos que nunca me viu ou que não conhece ninguém melhor do que eu.
Pode deixar o sol brilhar lá fora e dizer que é por sua causa que eu vim até aqui.
Pode se virar e me dizer adeus, ‘até nunca mais.’
Você pode ter medo de me perder, ou deixá-lo para mim se eu me descuidar de você.
Você pode segurar a minha mão e eu ficarei sempre contigo.
Entre nós não haverá monotonia ou desventuras.
Você pode me dizer tudo em uma única palavra, ou ouvir de mim aquilo que nunca diria a mais ninguém, mas você nunca poderá me conhecer realmente!
Essa condição é que nos evita dizer adeus.
O fato de nunca nos conhecermos realmente nos une.
Então o que sentimos não são amor nem ódio, ou é amor e é ódio. – ‘Não sei!’
E se um dia, eu e você concordarmos em tudo ou nada, entre nós só haverá motivos pra ficar.
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O ESCREVINHADOR*(quase um poema)
Não era um poema – versos tortos – no sentido técnico da palavra. Também não eram versos – poesia vazia – se um poeta os lê-se. Era sim um lamento – não um lamento de amor – mas quase uma ode à loucura e a dor.
O fato é que as letras estavam lá – não só letras – mas o sentido e o sentimento de cada palavra. Era como um perfume que roubava o ar e asfixiava quem o percebesse.
Ironia, pois sua vida sempre foi um romance no sentido técnico da palavra. E como escritor, era o melhor autor de suas próprias desventuras.
E foi num momento – no intervalo - que tirou a própria vida para vencer o medo da morte.
Não era – nem foi – um herói no sentido mítico da palavra – viveu suas aventuras como um coadjuvante à espera do papel principal. Morreu no final como fazia com seus melhores personagens.
Não era um livro – no sentido de obra literária – mas tinha lá suas notas de rodapé, onde explicava que o conteúdo não vale nada sem uma premissa.
Afinal aquelas linhas não falavam de um conto – ou uma crônica diabólica – nem contavam a sua própria história: era apenas quase um poema!
* (ô). [De escrevinhar + - dor.] - S. m. Fam. > Escritor de muito pouco merecimento, ou nenhum; escrevinhadeiro, escrevedor, escriba, rabiscador, borrador.
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CASAMENTO EM SÃO PARDINHO
Ao ouvir o escrivão disse:
- Não estou interessado.
E saiu chutando a porta do cartório.
‘Seu’ Nésio só teve tempo de segurar ‘Dona Vida’ nos braços antes dele mesmo cair sentado numa cadeira ao lado da escrivaninha.
Do lado de fora os desavisados cidadãos Pardienses nem se deram conta do homem que saía aos berros de lá de dentro.
- Não estou interessado! E esmurrava o ar como um Pelé depois do gol.
Já se foi o tempo em que nessa cidade as coisas aconteciam porque tinham de acontecer.
E também já se foi o tempo em que os amantes não podiam decidir quem deveriam amar de verdade.
Do outro lado da rua Soriano já esperava por isso, e não pensou duas vezes quando viu o amante sair gritando. Atravessou a rua, entrou no cartório e disse ‘sim’ na frente do juiz e da noiva Margarida.
Agora não havia mais motivo para vergonhas e outras sensações mais fortes, a imundícia estava feita.
Mas isso foi há uns seis anos atrás. Hoje Hugo e Soriano são um casal muito feliz, e Margarida apaixonou-se por Iara, a escrevente do cartório.
O Padre Jorgino nem acha mais estranho essa mania de se amar a quem se quer em São Pardinho.
TEXTOS: ALEXANDRE COSTA