Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente em movimentos sensuais e ritmados. Ela desce as mãos delicadamente até suas coxas, aperta os seios, vira-se de um lado para o outro mostrando as costas nuas.Ela é o design perfeito de um corpo de mulher.
Seus grandes olhos azuis hipnotizam sua presa, que indefesa atrás do vidro, entrega-se aos seus encantos.
Em cada instante vivido, em cada pensamento, em cada sorriso, em cada abrir e fechar das cortinas, ela vende muito mais que seu corpo, vende sua alma, sua dignidade e sua fé.
Uma diva, atriz, rainha, musa e escrava.
Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente diante do vidro que lhe impede de ver aqueles que se saciam diante de sua performance.
Todas as noites, ela pede que seja a última, ela implora através de gestos e gemidos, mas do outro lado, homens de mãos cheias e corações vazios contorcem-se pelo prazer imediato e fugaz.
E ela continua seus movimentos sensuais e ritmados; desce as mãos até seu sexo, geme até que ela mesma não conte mais quantas vezes gemeu naquela noite.
E os homens em fila indiana, a cada 5 minutos vividos, vão trocando de lugar num ritmo que lembra um carrossel. É o ritmo que ela está acostumada a viver.
Nada mais faz sentido agora. Os dois lados prisioneiros um do outro.
Cansada ela adormece. Quer sonhar com a liberdade, mas um cliente mais afoito esmurra o vidro para que ela acorde e lhe dê prazer: “E aí puta! Eu estou pagando, levanta e geme gostoso.”
Nada mais faz sentido quando não damos sentido a nada.
Cada momento guardado se torna uma grande pedra que incomoda e machuca.
Nada mais fazia sentido para aqueles homens do que ver todas as noites aquele corpo perfeito serpentando diante de seus olhos.
Nada mais fazia sentido para ela quando o que ela mais queria era não ser ignorada nem desprezada.
E nessas voltas que a vida dá nada faz mais sentido do que se sentir vivo.
ALEXANDRE COSTA

