Sábado, Fevereiro 24, 2007
ATRÁS DO VIDRO
Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente em movimentos sensuais e ritmados. Ela desce as mãos delicadamente até suas coxas, aperta os seios, vira-se de um lado para o outro mostrando as costas nuas.
Ela é o design perfeito de um corpo de mulher.
Seus grandes olhos azuis hipnotizam sua presa, que indefesa atrás do vidro, entrega-se aos seus encantos.
Em cada instante vivido, em cada pensamento, em cada sorriso, em cada abrir e fechar das cortinas, ela vende muito mais que seu corpo, vende sua alma, sua dignidade e sua fé.
Uma diva, atriz, rainha, musa e escrava.
Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente diante do vidro que lhe impede de ver aqueles que se saciam diante de sua performance.
Todas as noites, ela pede que seja a última, ela implora através de gestos e gemidos, mas do outro lado, homens de mãos cheias e corações vazios contorcem-se pelo prazer imediato e fugaz.
E ela continua seus movimentos sensuais e ritmados; desce as mãos até seu sexo, geme até que ela mesma não conte mais quantas vezes gemeu naquela noite.
E os homens em fila indiana, a cada 5 minutos vividos, vão trocando de lugar num ritmo que lembra um carrossel. É o ritmo que ela está acostumada a viver.
Nada mais faz sentido agora. Os dois lados prisioneiros um do outro.
Cansada ela adormece. Quer sonhar com a liberdade, mas um cliente mais afoito esmurra o vidro para que ela acorde e lhe dê prazer: “E aí puta! Eu estou pagando, levanta e geme gostoso.”
Nada mais faz sentido quando não damos sentido a nada.
Cada momento guardado se torna uma grande pedra que incomoda e machuca.
Nada mais fazia sentido para aqueles homens do que ver todas as noites aquele corpo perfeito serpentando diante de seus olhos.
Nada mais fazia sentido para ela quando o que ela mais queria era não ser ignorada nem desprezada.
E nessas voltas que a vida dá nada faz mais sentido do que se sentir vivo.

ALEXANDRE COSTA
 
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Terça-feira, Fevereiro 20, 2007
FIM
[Do lat. fine.]S. m.

1. Momento em que se acaba ou se conclui alguma coisa; conclusão, termo final.
2. Ponto além do qual não se pode prosseguir; extremo, limite.
3. A última parte de qualquer coisa.
4. Extremidade, limite.
5. Causa, motivo.
6. Intenção, propósito; finalidade.
7. Alvo, fito, mira.

Talvez você não perceba quando alguma coisa chega ao fim, outras vezes espera que ele não demore muito a chegar. Às vezes o desejamos, noutras vezes o repudiamos.
Tem vezes que não podemos dizer quando ele chegará, noutras ainda, ele está tão próximo que é inevitável. Talvez você não perceba que no meio da noite enquanto você dorme, o fim está à espreita, sussurrando em seu ouvido, querendo vencer a todo custo. O fim está aí, tão próximo e inexorável que dele não podemos fugir.
Assim como este texto acabará no ponto final, as letras também terão seu fim.
Mas existe algo que não se explica: no fim percebemos que o que acaba nem sempre termina, pois o fim é algo tão concreto e tão subjetivo, que não teria sentido acreditar que tudo pudesse desaparecer deixando para trás um sentimento de vazio.
 
posted by Alexandre Costa at 11:39 PM ¤ Permalink ¤ 2 comments
Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007
JOÃO HÉLIO - Sem palavras!
Todas as mães estão gritando
Todos os pais estão chorando
Todos os irmãos e irmãs estão sofrendo
Toda gente está estática
Toda a vida perde o sentido
Todos os valores são equívocos
Todos nós somos o inimigo do inimigo

Em cada esquina
Em cada sinal
Em cada madrugada
Nas folhas do jornal
Nos muros sujos
Nos contracheques
Somos todos frágeis

Estamos sem rumo
Sem limites
Sem esperança
Sem palavras!
 
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Sábado, Fevereiro 10, 2007
CONCEPÇÃO ARTÍSTICA DA MULHER - XXI

 
posted by Alexandre Costa at 6:19 PM ¤ Permalink ¤ 2 comments
CONCEPÇÃO ARTÍSTICA DA MULHER - XX

 
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Domingo, Fevereiro 04, 2007
JUNG, PLATÃO, O ANJO E EU
No fundo do restaurante de chão velho, judiado pelos passantes diários, viajantes e trabalhadores, havia uma parede azul feita de chapiscos.
Lá naquele canto indesejável, havia uma mesa de madeira com uma toalha xadrez surrada pelo tempo e a falta de higiene do proprietário.
Marcas de cotovelos, rabiscos e garranchos, arranhões, uma jura de amor e marcas de cigarro queimado, decoravam-na.
Uma única cadeira com uma das pernas remendadas, dava descanso a quem quisesse usá-la.
O forte cheiro de fritura que saía da cozinha era o aroma predominante do lugar.
Para quem olhava de fora, entrar ali seria um ato de destemida coragem e despreocupação com as coisas materiais da vida.
Para os que olhavam de dentro, nunca poderiam afirmar se chovia, ou se o dia estava ensolarado.
Mas como as coisas acontecem pelo simples fato de uma lei natural, nada poderia evitar que o destino seguisse seu inexorável caminho, determinista.
Foi então que, depois de dissipada a fumaça da fritura, pude perceber que não estava sozinho.
E pensei em Jung que me ensinou em seus livros sobre a sincronicidade das coisas...e pensei que Platão se enganara em alguns aspectos de sua filosofia idealista, pois há coisas que só a experiência do ocorrido pode provar sua materialidade.

Foi então que ali, naquele canto imundo e desconfortável um anjo apareceu, tocou a minha mão e pediu:

- Me passa o catchup!
 
posted by Alexandre Costa at 12:22 AM ¤ Permalink ¤ 5 comments
Sábado, Fevereiro 03, 2007
"QUANDO EU CRESCER"
Li esse texto da Juliana Pestana e não pude deixar de compartilhar com vocês!
 
posted by Alexandre Costa at 11:57 PM ¤ Permalink ¤ 1 comments
CARTA DE UM AUTOR QUALQUER













Escreverei apenas aquilo que eu próprio poderei criticar um dia.
Decidirei por mim mesmo o valor de cada letra e o modo como ela impressiona a quem lê.
Farei com que a moral esteja do meu lado, não em que lê, mas nas entrelinhas do papel.
Não citarei adversários, nem cuspirei elogios falsos.
Levantarei os olhos apenas àqueles que não pedirem bis.
Talvez, quem sabe um dia, eu mesmo venha a comprá-lo num sebo, numa espelunca qualquer.
 
posted by Alexandre Costa at 11:42 PM ¤ Permalink ¤ 1 comments
ENTRE O SILÊNCIO E O NADA
Entre todas as palavras
Entre todos os motivos
Entre todos os gemidos
No silêncio
Havia algo que se dizia
Sem mover os lábios
Sem conter as vergonhas
Sem medir as perdas.
Entre nossos corpos
O silêncio era nosso grito
E o nada se transformava
Em nosso hino.
 
posted by Alexandre Costa at 12:23 AM ¤ Permalink ¤ 1 comments