Sábado, Março 31, 2007








ENTRE A OPÇÃO E A LOUCURA (dizer ou não dizer)

Chegou a hora de falar, mas essa noite não.
Não há sentido em tudo isso ou no pouco das coisas que fazem sentido para todos nós.
Chegou a hora de falar, mas talvez não seja o momento apropriado, afinal de contas, os segredos que guardamos são nossos créditos e dívidas com nossa própria consciência.
Essa condição que ora nos enclausuramos, ora somos enclausurados, nos deixa a ouvir navios de dúvidas, cheios e lentos, invadindo nossos mares de temores.
A cada um de nós é entregue quando nascemos uma loucura e uma opção.
Escolha a loucura e seja feliz, escolha a opção por algo diferente e verá a si mesmo lutando contra as perdas que ela (a opção) carrega em seus braços.
Talvez tenha chegado a hora de dizer que ainda não é hora de dizer, e tudo perde sentido – até aquelas coisas que tememos e ao mesmo tempo desejamos – quando precisamos dizer.

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Quinta-feira, Março 29, 2007
SANDRA
Duas voltas na chave, eu estava em casa, e lá fora uma chuva fina me lembrava o que Sandra me disse horas antes.
- Vai chover e a chuva vai levar você.
Mas como ela poderia saber?
Nossos encontros sempre foram casuais, às vezes aconteciam quando pensávamos um no outro e sempre terminavam quando uma fina chuva começava a molhar o chão.
Vez ou outra ficava mais tempo, mas só até que a chuva me levasse embora.
Sandra sempre dizia que nossa relação era como chuva de verão: rápida e passageira.
Mas ao mesmo tempo era intensa e nos deixava exaustos no fim.
Da janela eu olhava a chuva lá fora, e tentava entender por que as coisas aconteciam daquela maneira.
Nosso encontro daquela tarde foi num café na Rua das Magnólias, um lugar aconchegante e discreto.
Mas não precisávamos de discrição, Sandra sempre me dizia que éramos um do outro e que todos deveriam saber.
Infelizmente nunca podemos ficar juntos mais que algumas horas, até que a chuva caísse e me levasse embora como uma maldição.
Num desses encontros pedi a ela que não me deixasse ir, já que isto acontecia sem a minha vontade.
Pensávamos que um pacto pudesse nos salvar daquele destino cruel.
No quarto, embaixo dos lençóis fizemos juras de amor e nos preparamos para enfrentar a chuva que começava a cair.
O doce som que embalava nossos corpos nos fez adormecer.
Lembro que acordei só no sofá da sala e lamentei que Sandra pudesse estar agora longe demais de uma outra chance para nós dois.
E então, a chuva fina se transformou em uma tempestade com ventos fortes que cantavam enquanto passavam pelas árvores da rua, pareciam dizer o nome dela.
Foi quando um raio seguido de um grande estrondo caiu bem perto, que ouvi baterem na porta.
Sandra estava ali, na minha frente, sorrindo como uma fada sorri, e dizendo que foi a tempestade que a trouxe até mim.
As coisas acontecem com ou sem a nossa vontade, acontecem por uma vontade maior que nos mostra e nos guia, ora vem mansa como garoa, ora vem forte como um trovão.
E desde esse dia vivemos como um só.
Em nossos encontros a chuva fina continua a me levar embora, para depois engrossar e trazer Sandra de volta, num grande estrondo.

ALEXANDRE COSTA

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Sábado, Março 24, 2007
MARIA e BEATRIZ
Havia naquela noite dentro de mim um desejo, de ver Maria e ver Beatriz.
Um desejo que começava no estômago e subia até a garganta, coçava minha língua me obrigando a dizer seus nomes.
Depois o desejo descia, e até onde eu pude perceber, estava em todo o meu corpo.
Eu pensei primeiro em Maria, depois pensei em Beatriz, era uma seqüência lógica, mas que vinha do coração.
Então fui ver Maria e também vi Beatriz, elas estavam juntas e juntas olharam para mim.
E elas me contaram que naquela noite, dentro de cada uma, um desejo crescia.
E foi o sorriso de Maria o primeiro que eu vi, depois veio o beijo de Beatriz e seus dedos entre meus cabelos, e veio o abraço que meu corpo só queria.
E agora os desejos somados eram três desejos mágicos, como se fossem os únicos e os últimos que nos fora concedido.
Falamos a noite toda de como falar era bom, e que havia essa coisa estranha e íntima que nos aproximava não importasse quanto o tempo nos afastasse.
Foram risos e gargalhadas, depois mãos e pele, olhares tímidos, depois ternos, depois tensos, depois tesos.
Fui eu ou foram elas, não sei bem ao certo quem disse primeiro, quem primeiro sorriu mais alto, quem primeiro lançou aquele olhar, quem primeiro se entregou.
Mas foi Beatriz quem levantou primeiro, depois Maria que me levou pela mão.
Para nós três, havia naquela noite algo mais que o simples desejo de matar o tempo, queríamos matar a saudade, o desejo, o chamado.
Vivíamos aquela história há muito tempo, em um livro sem nome que contava uma história verdadeira. Mas queríamos muito mais naquela noite.
Havia naquela noite dentro de cada um, o desejo de se ver, se tocar, deixar que as coisas naturalmente fossem acontecendo.
E Maria era linda, e Beatriz tão bela quanto aquela noite.
E tudo que nenhuma palavra pode dizer agora, marcou nosso recomeço.
Hoje eu, Maria e Beatriz vivemos em lugares distantes, com rumos diferentes, e sabemos o que nos leva e o que nos trás de volta àquele instante.
Faz muito tempo, mas já é noite e estou sentindo dentro de mim um desejo...

ALEXANDRE COSTA

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Sexta-feira, Março 23, 2007
ROUBO INTELECTUAL
Minha amiga Sandra me apareceu hoje no e-mail gritando que havia sido roubada!
“Puxa vida” pensei. Tomara que nada pior tenha acontecido.
Então descobri.
Minha amiga havia sido vítima de roubo ético. Roubaram-lhe a criatividade, a propriedade intelectual. Um “espertoman” qualquer (Jeandro Cabral) roubou de seu blog um texto inteiro e o publicou em outro como se fosse dele, e o pior, recebeu comentários elogiosos sobre “seu texto inédito”.
Mas no final das contas não foi ele o agraciado, foi a minha amiga Sandra Pontes que recebendo os elogios de outros leitores, teve sua obra ainda mais reconhecida.
Ela estava perplexa e furiosa, e com razão.
Ninguém rouba fisicamente a criatividade ou a intelectualidade de alguém, nesse caso o que se rouba é outra coisa.
O Blog em questão não tem culpa de divulgar esse tipo de gente (mas elas existem).
Cabe a nós denunciar esses plagiadores, e aqui estamos nós.
Minha amiga Sandra é maior que todo esse imbróglio, e com sua capacidade não será confundida nem apagada de suas habilidades.
E nós leitores e/ou blogueiros devemos saber quem é ético e quem não é na Blogosfera e denunciar!

Veja o texto plagiado em: http://bardoescritor.blogspot.com/2007/03/mente-humana-as-mentes-marcam-os-dias.html#comments

Veja o texto original em: http://sandrapontes.com/?p=759
 
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Sábado, Março 17, 2007
CASO PERDIDO
O tempo se fecha ao redor dos ouvintes, o teto parece esmagar a todos dentro da sala, o advogado de defesa sua frio enquanto o promotor salivando diante dos jurados, cospe seu discurso acadêmico de acusação.
O juiz do caso, de olhos esbugalhados e ouvidos atentos bate o martelo e pede silêncio a todos.
- O caso é grave. Peço a todos que tenham um pouco mais de respeito com o réu. – esbraveja em direção ao público.
O advogado de defesa, entre o espanto e o choro compulsivo, tenta argumentar algo em vão, novamente a platéia se inflama diante das provas apresentadas pela acusação.
Mais uma vez o juiz pede silêncio ou tira todo mundo da sala.
Em um canto, guardado por dois brutamontes do estado, em estado cataléptico, o réu ouve tudo sem mover um único músculo do corpo, fato que deixava os advogados de defesa espantados.
As câmeras de TV que filmavam o julgamento davam closes no réu, que por um estranho motivo, que incomodava a todos, não se movia, não chorava, não xingava, não se abatia com nada. Com certeza, certo de sua inocência.
- Então senhoras e senhores. - continua o promotor. O réu voltou-se para a vítima e com este mesmo olhar de peixe morto (e aponta o réu para todos) começa a rir descaradamente, a balançar os ombros, e cai sobre o corpo estendido no chão.
Aquela última frase foi a gota d’água para a audiência. Um murmúrio seguido de alguns palavrões dava como certo a condenação do réu.
Em defesa do réu, naquele exato momento, os advogados nada tinham a dizer. Este era um dos casos mais difíceis e bizarros que tinham aceito, e pareciam já quase desistir da causa quando um dos defensores pediu a palavra.
- Senhores jurados. Nada justifica um crime, e o crime do meu cliente foi não ter vontade própria, não poder escolher entre cometer e não cometer um ato, meu cliente é culpado por não ter livre arbítrio, nem poder torcer para nenhum time de futebol. Neste mundo, atores de televisão, redatores e bonecos de madeira articulados são culpados por não serem eles mesmos. Mas o fato de ser o que não se é não é motivo para se deixar de ser alguma coisa.
Meu cliente é um boneco de madeira, mas poderia ser qualquer outro tipo de boneco. Se disse o que disse, foi porque colocaram palavras em sua boca. Bonecos de madeira, atores e redatores não são culpados pelo que pensam ou falam, pois são de uma certa maneira manipulados.
Assim, digo que meu cliente é inocente da acusação, pois estaríamos também condenando a quem manipula.
A sala ficou em completo silêncio. Podia-se ouvir o cabelo crescendo nas cabeças alheias. O que parecia impossível estava acontecendo, o jogo estava virando.
Os jurados com lágrimas nos olhos ouviram o juiz ler o veredicto final:
- Em decorrência dos fatos aqui apresentados pela defesa, declaro o réu inocente. E digo mais: Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo.
 
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